Atraso na emergência da soja pode custar até 12 sacas por hectare por dia
Especialista alerta para cuidados no início da safra 2026/27 diante do calor, irregularidade das chuvas e risco de replantio.

Com o fim do vazio sanitário e o início dos preparativos para o plantio da safra de soja 2026/27, produtores brasileiros precisam redobrar os cuidados na implantação das lavouras. Um dos principais alertas está relacionado à emergência das plântulas: cada dia de atraso pode representar uma perda de 10 a 12 sacas de soja por hectare.
O alerta é do professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em Sinop, Rogério Coimbra, que apresentou ao Notícias Agrícolas dados de pesquisas de campo realizadas ao longo de vários anos.
Segundo o especialista, a qualidade das sementes e as condições encontradas no momento da semeadura são determinantes para o potencial produtivo da lavoura.
“A semente é um ser vivo e, mesmo com alta germinação e vigor, quando exposta a condições extremas e temperaturas muito altas, ela perde qualidade, gerando falhas de estande ou atraso na emergência, o que impacta diretamente o teto produtivo”, explicou Coimbra.
Calor e chuvas irregulares aumentam preocupação
O início da nova safra ocorre sob influência de condições climáticas que podem elevar os riscos para os produtores. Entre os fatores de preocupação estão temperaturas mais altas e distribuição irregular das chuvas.
No interior de Mato Grosso, um dos principais estados produtores de soja do país, esse cenário é conhecido entre produtores como “chuvas de manga”: precipitações volumosas e localizadas seguidas por períodos de estiagem.
Em anos de calor intenso e veranicos, aumenta a possibilidade de falhas no estabelecimento da lavoura e, consequentemente, de necessidade de replantio.
Na safra 2023/24, por exemplo, cerca de 8% das áreas de Mato Grosso precisaram ser replantadas, segundo o especialista.
Planejamento pode reduzir prejuízos
Além do custo da própria semente, o replantio representa despesas adicionais com óleo diesel, fertilizantes e novas operações de semeadura, aumentando a pressão sobre as margens do produtor.
Para reduzir os riscos, Coimbra recomenda atenção especial à qualidade das sementes e ao tratamento industrial ou realizado na propriedade. Também é importante controlar com precisão a profundidade de semeadura e o espaçamento, buscando aproveitar melhor a água disponível no solo.
Outra estratégia apontada pelo professor é evitar concentrar todo o plantio em uma única data ou apostar em apenas uma cultivar.
A diversificação de ciclos e materiais genéticos pode reduzir os riscos provocados pelas condições climáticas ao longo do desenvolvimento da lavoura.
Esperar o momento adequado
Mesmo com a pressão para iniciar o plantio assim que termina o vazio sanitário, a recomendação é de cautela.
Segundo Coimbra, o produtor deve aguardar condições adequadas de umidade no perfil do solo antes de entrar com as plantadeiras. A decisão pode ser determinante para garantir uma emergência uniforme e preservar o potencial produtivo da lavoura.
Apesar do cenário de custos elevados e margens mais apertadas em diferentes regiões, o professor avalia que o produtor brasileiro mantém capacidade de adaptação e resiliência.
A expectativa, segundo Coimbra, é de que a área cultivada com soja no Brasil permaneça estável, com possibilidade de leve crescimento, sustentada pelo avanço da tecnificação, renovação do maquinário e desenvolvimento genético.
Para o especialista, o desafio do agronegócio brasileiro atualmente vai além do aumento da produtividade.
“O Brasil passou da fase de aprender a fazer para o nível de desenvolver e exportar tecnologias. Hoje, o foco não é apenas o volume de produtividade, mas a excelência e a qualidade da matéria-prima que entregamos ao mercado interno e global”, concluiu.
