Safra de café 2026/27 termina com oferta elevada, mas qualidade preocupa produtores e exportadores
Chuvas durante a colheita deterioraram parte dos grãos, ampliaram a diferença de preços entre os tipos de café e deixam produtores mais cautelosos nas vendas

A colheita brasileira de café da safra 2026/27 chega à reta final com um cenário de oferta elevada, mas com uma preocupação crescente entre produtores, exportadores e compradores: a redução da qualidade dos grãos. O excesso de chuvas durante o período de colheita acelerou a maturação dos frutos e aumentou a ocorrência de cafés com defeitos, provocando uma diferença maior entre os preços das diferentes qualidades no mercado físico.
O impacto climático já começa a aparecer nas negociações. Exportadores relatam maior disponibilidade de cafés de padrão comercial e redução da oferta de grãos considerados de melhor qualidade. Com isso, compradores passaram a reavaliar os preços de acordo com o padrão da bebida, enquanto produtores que conseguiram preservar cafés finos podem encontrar oportunidades de valorização.
Segundo o engenheiro agrônomo e consultor da cadeia da cafeicultura Jonas Ferraresso, a safra tinha elevado potencial de qualidade, mas foi prejudicada por um período de 15 a 20 dias de chuvas quase contínuas, muitas delas fora do período esperado.
Chuva prejudicou qualidade dos grãos
As condições climáticas aceleraram a maturação dos frutos que já estavam maduros. Parte deles passou rapidamente para o estágio de “passa” ainda no pé, comprometendo características sensoriais importantes.
Também houve aumento de grãos classificados como “chumbados”, com coloração acinzentada, e “ardidos”, de tonalidade amarronzada associada à fermentação. A combinação de chuva e alta umidade ainda obrigou produtores a prolongarem o uso de secadores mecânicos, aumentando o tempo necessário para o processamento.
Apesar dos problemas de qualidade, Ferraresso explica que o tamanho dos grãos não foi tão prejudicado quanto em safras anteriores.
“A peneira ficou um pouco aquém do esperado, mas não é um defeito gravíssimo como aconteceu em 23/24, quando basicamente não se encontrava cafés acima de 16, 17”, afirmou.
Para o especialista, produtores que conseguiram preservar a qualidade devem buscar canais de comercialização capazes de remunerar esse diferencial.
“Quem conseguiu uma janela melhor vai ter um café diferenciado em relação à média da maior parte das regiões. Então, esse mercado de cafés mais finos tende a aparecer e com preços melhores diante do fato de que cafés de maior qualidade serão mais raros nesta safra”, explicou.
Diferença de preços aumenta
O impacto das condições climáticas também é percebido pelos exportadores. Márcio Ferreira, presidente do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), afirma que o excesso de chuvas aumentou o volume de café de varrição e prejudicou os padrões de bebida.
Segundo ele, o cenário já vinha provocando um “alargamento dos diferenciais” entre os preços dos diferentes tipos de café.
“Os cafés cerejas foram afetados, os fine cups também foram afetados. Os good cups, embora também tenham sido afetados de forma substancial, ainda há uma disponibilidade muito grande para todo o decorrer da safra”, afirmou.
Com maior oferta de cafés de qualidade inferior, a tendência é de descontos mais acentuados para esses lotes. Segundo Ferreira, a pressão também se reflete na Bolsa de Nova York, referência internacional para a formação dos preços do café arábica.
Apesar dos problemas, o presidente do Cecafé avalia que o Brasil continuará tendo capacidade para atender à demanda internacional por diferentes padrões de café.
“O Brasil terá plenas condições de atender às demandas de fine cup, good cup, porque o tamanho da safra é expressivo”, afirmou.
Conilon também sente pressão
O cenário de maior oferta de cafés de qualidade inferior também influencia o mercado de conilon. De acordo com Ferreira, a arbitragem entre os preços do conilon e do arábica permanece elevada.
O conilon tem participação importante no consumo interno brasileiro e, segundo o presidente do Cecafé, representa aproximadamente 85% da matéria-prima utilizada nesse mercado.
Mesmo os cafés arábica de bebida mais fraca ainda apresentam prêmio em relação ao conilon, mas a diferença de preços acaba sendo influenciada pela maior disponibilidade de grãos afetados pelas condições climáticas.
Produtores seguram vendas
Apesar da possibilidade de valorização dos cafés de melhor qualidade, o mercado físico apresenta ritmo de negociação considerado lento para o período.
O analista de mercado e diretor do Escritório Carvalhaes, Eduardo Carvalhaes, avalia que muitos produtores estão segurando os estoques como estratégia de proteção diante das incertezas econômicas e climáticas.
“Negócios saem todos os dias, e a tendência é de que o mercado vá se adaptando à qualidade da safra”, afirmou.
Entre os fatores que influenciam a decisão dos cafeicultores estão a inflação, a cotação do dólar e as incertezas sobre o comportamento do clima na próxima safra. A preocupação não se limita ao Brasil e também aparece em países produtores como Colômbia e nações da América Central e da Ásia.
Carvalhaes avalia que o café armazenado passou a ser visto por muitos produtores como uma espécie de reserva financeira, especialmente por ser uma commodity negociada em dólar e com alta liquidez.
“O cafeicultor que é, e sempre foi, uma pessoa tradicional conservadora no modo de mexer com o dinheiro, ele olha essa situação e sabe que tem um produto que é cotado em dólar e que tem uma liquidez enorme”, explicou.
Florada da próxima safra preocupa
Enquanto os produtores ainda administram a comercialização da safra 2026/27, as atenções já se voltam para a produção de 2027/28.
Algumas regiões começaram a registrar as primeiras floradas, mas parte das flores já foi prejudicada pelas irregularidades climáticas. A preocupação agora está concentrada no volume e na regularidade das chuvas durante a primavera e o verão.
Entre as principais dúvidas estão o comportamento das temperaturas, a ocorrência de períodos de estiagem, conhecidos como veranicos, e a capacidade das flores de se transformar em frutos.
Segundo Carvalhaes, essas incertezas também ajudam a explicar por que muitos produtores preferem manter o café armazenado em vez de vender toda a produção disponível.
“Se ele soubesse que a safra dele do ano que vem ia ser grande, ele estaria vendendo”, afirmou.
Para o analista, o comportamento dos próprios produtores é um dos principais indicadores sobre as expectativas para a próxima safra. A baixa disposição para vender, segundo ele, demonstra que ainda existe cautela em relação ao tamanho da produção de 2027/28 e ao comportamento do mercado nos próximos meses.
