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Custo de produção do milho deve subir 11% na safra 2026/27, aponta Rabobank

Apesar da alta nos gastos com fertilizantes e defensivos, margens operacionais de soja e milho devem melhorar no Brasil; juros elevados e endividamento, porém, continuam pressionando o caixa dos produtores.

Matheus Borges2026-10-20Fonte: Reuters.
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Os custos operacionais de produção do milho no Brasil devem aumentar cerca de 11% na safra 2026/27, enquanto os da soja têm alta estimada em aproximadamente 4%. Mesmo com despesas maiores, as margens operacionais das duas culturas devem apresentar recuperação. O cenário, no entanto, não significa necessariamente mais lucro para os agricultores, que ainda enfrentam juros elevados, dívidas acumuladas e dificuldades de fluxo de caixa.

As projeções são do Rabobank e fazem parte do relatório Field Crop Margin Outlook 2027, divulgado em outubro pelo RaboResearch Food & Agribusiness. O estudo analisa as perspectivas para os custos e as margens agrícolas em diferentes regiões produtoras do mundo.

De acordo com o levantamento, o custo operacional do milho deve passar de US$ 739 por hectare, em 2026, para US$ 820 na safra 2026/27. Na soja, a estimativa é de aumento de US$ 866 para US$ 899 por hectare.

Fertilizantes e defensivos elevam despesas

O milho deve registrar a maior pressão de custos entre as duas culturas analisadas no Brasil. As despesas com fertilizantes devem subir de US$ 226 para US$ 248 por hectare, uma alta de aproximadamente 10%.

Já os gastos com defensivos agrícolas têm aumento projetado de 35%, passando de US$ 96 para US$ 131 por hectare. Entre os fatores que influenciam esse avanço estão os custos de produtos utilizados no controle de pragas.

Na soja, as variações previstas são mais moderadas. Os gastos com fertilizantes devem passar de US$ 284 para US$ 290 por hectare, enquanto os custos com defensivos devem aumentar de US$ 292 para US$ 301.

O relatório também aponta que as tensões geopolíticas no Oriente Médio contribuem para sustentar os preços de insumos importantes, como a ureia. Ao mesmo tempo, a ampla oferta mundial de grãos e oleaginosas limita as perspectivas de valorização consistente das commodities.

Margens operacionais devem melhorar

Apesar do aumento das despesas, o Rabobank projeta uma melhora nas margens operacionais das duas culturas no Brasil.

Na soja, o indicador deve avançar de 24% em 2026 para 38% na safra 2026/27. No milho, a previsão é de crescimento de 46% para 55%.

Esses percentuais, porém, não representam o lucro líquido do produtor. O cálculo considera custos diretamente relacionados à produção, como sementes, fertilizantes, defensivos e combustíveis, mas deixa de fora despesas como juros, custos financeiros e da terra.

Na prática, isso significa que uma propriedade pode apresentar margem operacional favorável e, ainda assim, enfrentar dificuldades para pagar financiamentos e outras obrigações.

Juros e endividamento continuam preocupando

Segundo o Rabobank, parte dos produtores brasileiros ainda enfrenta endividamento elevado, relacionado a investimentos realizados em safras anteriores. Com o custo do crédito alto e restrições de caixa, as dívidas podem reduzir os benefícios de uma melhora nos resultados operacionais.

O relatório menciona índices regionais de inadimplência superiores a 8%. O dado se refere a indicadores regionais citados pelo banco e não deve ser interpretado como uma taxa nacional de inadimplência do crédito rural.

O cenário reforça a diferença entre produzir com margens operacionais positivas e conseguir manter a saúde financeira da propriedade. O pagamento de juros, financiamentos e outras despesas pode comprometer o resultado final, mesmo quando a receita supera os custos diretamente ligados ao cultivo.

Brasil tem perspectiva mais favorável que os Estados Unidos

Na comparação internacional, o Brasil apresenta projeções de margens operacionais mais favoráveis para soja e milho do que os Estados Unidos.

No mercado norte-americano, a margem da soja deve recuar de 18% para 15%, enquanto a do milho pode cair de 7% para apenas 3% em 2027.

Na Argentina, a margem operacional da soja deve avançar de 9% para 21%. Para o milho, a projeção é de queda de 26% para 23%, em meio à pressão dos custos com fertilizantes.

Apesar da vantagem brasileira nos indicadores operacionais, o Rabobank ressalta que juros e endividamento continuam sendo obstáculos para a recuperação financeira dos agricultores.

Recuperação depende de custos, preços e clima

A perspectiva para 2027 também está condicionada a fatores internacionais, como a disponibilidade de grãos, o comportamento dos preços das commodities e as tensões geopolíticas que afetam o mercado de insumos.

O relatório aponta ainda riscos climáticos associados ao El Niño, cuja possível continuidade no primeiro semestre de 2027 pode trazer incertezas para a produção agrícola. Eventuais problemas de oferta podem provocar altas pontuais nos preços, mas não garantem uma valorização prolongada.

Para a safra 2026/27, a projeção do Rabobank é de melhora operacional para os produtores brasileiros de soja e milho, mesmo com custos mais elevados. A transformação desse resultado em maior tranquilidade financeira dependerá também das condições de financiamento, do controle das despesas e das oportunidades de comercialização.